Bagagem rock

Os instrumentos mais estranhos já usados no rock: quando qualquer coisa podia virar música

Existe uma velha máxima no rock que diz que, se faz barulho, pode virar instrumento. E convenhamos: poucas frases resumem tão bem a essência desse estilo musical. O rock nunca foi apenas um conjunto de acordes, amplificadores e guitarras penduradas no pescoço. Ele sempre foi um estado de espírito. Uma provocação. Uma recusa em aceitar que a criatividade precise seguir regras.

Talvez seja justamente por isso que alguns dos sons mais marcantes da história do rock tenham nascido de objetos que ninguém imaginaria encontrar dentro de um estúdio. Serras, aspiradores de pó, correntes, máquinas industriais, brinquedos infantis, panelas, tubos de metal, máquinas de escrever e até partes do próprio corpo acabaram transformados em instrumentos musicais.

Mais do que curiosidades, esses objetos contam muito sobre a personalidade dos artistas. Eles revelam um comportamento típico do rock: a vontade permanente de desafiar expectativas e mostrar que a arte pode surgir de qualquer lugar.

Quando o instrumento deixa de ser importante

Ao contrário da música clássica, em que os instrumentos seguem padrões estabelecidos há séculos, o rock sempre incentivou a experimentação. Desde os anos 1960, muitos músicos passaram a enxergar qualquer objeto como uma possível fonte sonora.

Essa mentalidade surgiu em parte pela influência da música experimental, da arte contemporânea e das vanguardas europeias, mas ganhou uma identidade própria dentro do rock. Afinal, poucos estilos musicais valorizam tanto a personalidade quanto a técnica.

Não era raro um artista pensar primeiro no efeito emocional que queria causar para só depois descobrir como produzir aquele som.

A serra musical que parecia um fantasma

Um dos instrumentos mais improváveis usados no rock é a serra musical.

Não estamos falando de uma motosserra, mas de uma serra manual de carpinteiro tocada com arco de violino. Ao ser curvada, ela produz um som etéreo, quase sobrenatural.

O instrumento apareceu em gravações de artistas como Tom Waits, sendo também utilizado em apresentações ligadas ao rock alternativo, ao folk e ao rock experimental. Seu timbre lembra uma mistura entre um theremin e uma voz humana distante, criando atmosferas difíceis de reproduzir com sintetizadores.

Aspiradores de pó virando instrumentos

Pode parecer piada, mas não é.

O grupo inglês Pink Floyd utilizou aspiradores de pó durante experiências sonoras nas apresentações de “The Man and The Journey”, no final dos anos 1960. O objetivo não era criar uma melodia, mas transformar sons domésticos em texturas musicais.

Décadas depois, diversos artistas do rock industrial retomariam essa ideia, utilizando equipamentos elétricos como parte das performances ao vivo.

Máquinas de escrever também fazem rock

Uma das gravações mais famosas envolvendo uma máquina de escrever é “Typewriter”, composta por Leroy Anderson. Mas ela também encontrou espaço no universo do rock.

Bandas experimentais passaram a utilizá-la como instrumento de percussão, aproveitando o ritmo natural das teclas, do carro de retorno e da campainha.

O grupo Kraftwerk, embora associado à música eletrônica, influenciou profundamente artistas do rock ao incorporar sons mecânicos e industriais em suas composições, ajudando a quebrar a ideia de que apenas instrumentos tradicionais poderiam fazer música.

Ferragens, correntes e sucata

Se existe um gênero que levou essa filosofia ao extremo, foi o rock industrial.

Bandas como Einstürzende Neubauten praticamente reinventaram o conceito de instrumento musical. Seus integrantes utilizavam chapas de aço, britadeiras, molas, tambores metálicos, canos, perfuratrizes, vigas de construção e enormes peças de sucata.

Os shows pareciam uma mistura de concerto, obra de engenharia e performance artística. Muitas vezes, o público sequer conseguia distinguir onde terminava o instrumento e começava o cenário.

Essa estética influenciaria posteriormente grupos como Nine Inch Nails, Ministry e Rammstein.

O violino elétrico que parecia guitarra

Embora o violino exista há séculos, sua utilização dentro do rock foi completamente reinventada.

David Cross, do King Crimson, explorou distorções pesadas no instrumento, enquanto Jean-Luc Ponty aproximou o violino do universo do rock progressivo.

Já Eddie Jobson levou o instrumento a um novo patamar usando pedais de efeitos, delays e sintetizadores, fazendo o violino soar como guitarras, teclados ou qualquer coisa entre eles.

O theremin: tocar sem tocar

Poucos instrumentos parecem tão futuristas quanto o theremin.

Inventado em 1920, ele é controlado sem contato físico. O músico movimenta as mãos próximas a duas antenas, alterando altura e volume apenas com gestos.

Embora tenha ficado famoso em filmes de ficção científica, acabou entrando no rock graças a artistas fascinados por sons incomuns.

Jimmy Page utilizou um theremin durante apresentações ao vivo do Led Zeppelin, especialmente em “Whole Lotta Love”. O instrumento virou parte da identidade visual dos shows, já que Page parecia controlar energia elétrica com as próprias mãos.

Brinquedos infantis também entram na banda

Ao longo das décadas, muitos músicos descobriram que brinquedos produziam sons únicos.

Caixinhas musicais, pianinhos infantis, xilofones de plástico e teclados de brinquedo aparecem em gravações de artistas como Tom Waits, Radiohead, Gorillaz e They Might Be Giants.

Esses timbres imperfeitos ajudam a transmitir nostalgia, ironia ou estranheza — sentimentos que muitas vezes seriam difíceis de alcançar com instrumentos convencionais.

O mellotron: uma máquina cheia de fantasmas

Antes da chegada dos samplers digitais, existia o mellotron.

Cada tecla acionava uma pequena fita magnética contendo gravações reais de violinos, corais, flautas ou outros instrumentos.

Seu funcionamento era tão complexo que frequentemente apresentava defeitos. Mesmo assim, bandas como The Beatles, King Crimson, Genesis, Yes e The Moody Blues transformaram suas limitações em parte do charme.

O resultado era um som misterioso, levemente desafinado e incrivelmente humano.

Água como instrumento

Alguns artistas descobriram que recipientes com diferentes quantidades de água poderiam produzir notas distintas.

Copos, garrafas e taças passaram a integrar gravações experimentais de diversos músicos ligados ao rock progressivo e ao rock psicodélico.

Outros exploraram baldes, tambores cheios de líquido e até sons produzidos por gotas caindo em superfícies metálicas.

O corpo humano também pode ser uma orquestra

Muito antes do beatbox se popularizar, músicos de rock já utilizavam o próprio corpo como instrumento.

Palmas, estalos de dedos, batidas no peito, assobios, respiração amplificada, pisadas e até batimentos cardíacos foram incorporados em gravações.

O Pink Floyd utilizou sons de relógios, batimentos cardíacos e respiração em “The Dark Side of the Moon”, mostrando que o próprio organismo humano poderia participar da construção musical.

Peter Gabriel também ficou conhecido por explorar intensamente sons corporais em seus trabalhos solo.

Tubos de PVC e encanamentos

Nos anos 1980 e 1990, alguns grupos passaram a utilizar tubos de PVC afinados por comprimento.

Batidos com chinelos, baquetas ou sandálias, produziam sons graves bastante característicos.

Embora tenham ficado populares em apresentações de grupos percussivos, também foram incorporados por artistas do rock experimental em performances ao vivo.

Furadeiras e ferramentas elétricas

Quando se fala em performances radicais, poucos superam o rock industrial.

Bandas utilizaram furadeiras, esmerilhadeiras, serras elétricas e lixadeiras ligadas a microfones de contato para produzir ruídos intensos.

O objetivo nunca foi criar melodias convencionais, mas provocar impacto físico no público. O barulho fazia parte da experiência estética tanto quanto a música.

O E-Bow: quando a guitarra nunca para de soar

Embora seja um acessório e não exatamente um instrumento, o E-Bow revolucionou a guitarra.

Ele utiliza um campo eletromagnético para manter a corda vibrando indefinidamente.

Artistas como Robert Fripp, The Edge e diversos guitarristas do rock alternativo exploraram esse recurso para criar notas infinitas que lembram violinos ou sintetizadores.

Guitarras preparadas

Inspirados pelo conceito do “piano preparado”, criado pelo compositor John Cage, alguns guitarristas passaram a inserir objetos entre as cordas.

Chaves de fenda, moedas, grampos, baquetas, molas, parafusos e até garfos alteravam completamente o timbre do instrumento.

Sonic Youth talvez tenha sido a banda que levou essa técnica mais longe, transformando guitarras em verdadeiros laboratórios sonoros.

O comportamento por trás de toda essa criatividade

Existe um ponto em comum entre praticamente todos esses exemplos.

Os músicos não estavam tentando apenas encontrar sons diferentes. Eles queriam desafiar a ideia de que existe uma forma correta de fazer música.

Essa postura conversa diretamente com o DNA do rock. Desde seu nascimento, o gênero sempre valorizou pessoas que pensavam diferente, questionavam padrões e encontravam beleza onde ninguém mais enxergava.

Transformar uma máquina industrial em instrumento significa dizer que qualquer objeto pode ganhar uma nova função. Da mesma forma, o rock sempre sugeriu que qualquer pessoa também pode reinventar a própria identidade. Talvez seja essa a maior lição deixada pelos instrumentos mais estranhos da história do rock. Eles mostram que criatividade não depende de equipamentos caros, tecnologia de ponta ou regras rígidas. Depende de curiosidade. Depende de coragem. E, principalmente, da disposição para ouvir música onde todo o resto do mundo só consegue escutar barulho.

Referências (base conceitual):

  • BLUSH, Steven. American Hardcore: A Tribal History. 2. ed. Los Angeles: Feral House, 2010.
  • COYLE, Michael (org.). The Cambridge Companion to the Guitar. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
  • EVERETT, Walter. The Beatles as Musicians: Revolver through the Anthology. New York: Oxford University Press, 1999.
  • HICKS, Michael. Henry Cowell, Bohemian. Urbana: University of Illinois Press, 2002.
  • MACAULEY, David. The Way Things Work Now. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2016.
  • MACAN, Edward. Rocking the Classics: English Progressive Rock and the Counterculture. New York: Oxford University Press, 1997.
  • REYNOLDS, Simon. Rip It Up and Start Again: Postpunk 1978–1984. London: Faber & Faber, 2005.
  • THOMPSON, Dave. Alternative Rock. San Francisco: Miller Freeman Books, 2000.

Referências de Vídeo

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